Nota política - Quando a eleição sobrepõe o projeto político: Um diálogo com o movimento Correnteza sobre a frágil unidade com a JPT na eleição do Grêmio Politécnico da USP

O objetivo deste texto é estabelecer um debate franco com o conjunto do Movimento Estudantil (ME) e, em especial, com o Correnteza, sobre os desdobramentos dessa aliança.

Nota política - Quando a eleição sobrepõe o projeto político: Um diálogo com o movimento Correnteza sobre a frágil unidade com a JPT na eleição do Grêmio Politécnico da USP

Nota política da União da Juventude Comunista (UJC) na USP

Encontram-se em andamento as eleições para o Grêmio Politécnico, entidade representativa dos estudantes da Escola Politécnica da USP. O processo eleitoral conta com duas chapas: a “Grêmio Popular”, na qual participamos enquanto UJC, e a “Elos”, de continuidade. Esta última, anteriormente composta e dirigida por juventudes do PT (JPT), agora inclui também o Movimento Correnteza. O objetivo deste texto é estabelecer um debate franco com o conjunto do Movimento Estudantil (ME) e, em especial, com o Correnteza, sobre os desdobramentos dessa aliança.

Avaliamos que a participação do Correnteza na chapa de continuidade não contribui para o fortalecimento do ME. Trata-se de uma aliança que não se justifica do ponto de vista programático e das unidades necessárias para o desenvolvimento do movimento, tanto na USP – como buscamos construir no DCE – quanto nacionalmente. Após buscar esclarecimentos com o Correnteza, consideramos que o caminho adotado pelos companheiros é equivocado, pois vai no sentido oposto de suas próprias políticas e os esforços construídos em âmbito nacional.

Atualmente, o ME nacional apresenta uma contraposição clara entre um setor governista majoritário (UJS/PCdoB, PT, LPJ, Afronte/PSOL, RUA/PSOL, etc.) e um setor independente de oposição (UJC/PCBR, Rebeldia/PSTU, Juntos!/PSOL, Correnteza/UP, etc.). O campo governista, hegemônico há décadas, atua como correia de transmissão dos interesses do Ministério da Educação, em vez de defender os estudantes com independência de classe. A oposição, por outro lado, mesmo frente às diferenças políticas entre as organizações que a compõem, busca articular-se para potencializar a luta por projetos alternativos às medidas neoliberais do capitalismo brasileiro contemporâneo.

Um exemplo recente da política tocada pela majoritária foi sua postura perante a greve das universidades federais: enquanto técnicos, docentes e estudantes paralisaram contra cortes no financiamento, o setor governista protegeu a política de austeridade do governo federal. Outros projetos apoiados por esse campo incluem o Novo Arcabouço Fiscal e a conciliação com setores predatórios da burguesia, como o impulsionamento dos oligopólios do ensino privado, por meio de programas como FIES e ProUni. Essas práticas contribuem para a despolitização e desmobilização do ME, enfraquecendo as entidades de base.

Diante desse cenário, como justificar uma aliança com o setor governista? A oposição possui o consenso mínimo de defender uma universidade 100% pública, estatal, gratuita e de qualidade. No entanto, a chapa “Elos”, por ser uma continuidade da gestão da JPT, não aborda esse programa. Sua carta-programa adota uma perspectiva empresarial de gestão, sem qualquer intenção de mobilização ou de retomada do papel histórico do ME. Supomos que os companheiros do Correnteza vislumbrem maior chance eleitoral nessa aliança, dada a aversão da Poli às mobilizações de massa e aos comunistas. Mas perguntamos, com franqueza e companheirismo: a que preço?

Nós, da UJC e do PCBR, discordamos dessa concepção. O ME beneficia-se mais com a disputa entre chapas que politizam a discussão e apresentam suas bandeiras abertamente. Ao aliar-se a uma chapa de programa empresarial e composta pela JPT, o Correnteza abre mão de construir um movimento consequente na Poli. A gestão da “Elos” não contribuiu para a politização dos estudantes, abstendo-se de mobilizações como pelas cotas trans, pelo fim do Novo Arcabouço Fiscal, pela jornada de 30 horas e em solidariedade ao povo palestino. 

Nossa avaliação está ligada não apenas a essa postura nas mobilizações recentes, mas também a postura “apartidária”, por si já é despolitizante, mas fica ainda mais prejudicial quando vemos como a gestão se vinculou às lutas recentes. Isso é corroborado pela própria participação de membros da gestão no Conselho Nacional de Entidades Gerais (CONEG) da UNE, em que estiveram junto aos delegados do campo majoritário, por seu vínculo aos militantes do PT que compunham a gestão. 

É notável como a JPT ocultou de muitos estudantes que seus militantes integravam a última gestão do Grêmio, prática que revela desonestidade política. O Correnteza, neste momento, não rompe com essa forma de atuação, e acaba indo na contramão do que defendemos enquanto oposição: uma política estudantil honesta e em que as bandeiras sejam defendidas com clareza, visando à politização e ao avanço do movimento. E, embora não escondam dos estudantes que seus militantes estão na chapa “Elos", não se propõem a construir essa disputa clara e política, assumindo o seu programa de maneira mais aberta.

Além disso, essa gestão entregará o Grêmio com um rombo financeiro milionário, após um ano com apenas uma prestação de contas, lançada dois dias antes da homologação das chapas neste pleito e que, segundo membros da própria chapa, não possuía "valor contábil". Cerca de metade dessa dívida foi contraída em processos trabalhistas devido ao não pagamento de direitos a funcionários do Grêmio, o que evidencia o injustificável descaso histórico das últimas gestões com a classe trabalhadora. 

A carta-programa da “Elos” ainda indica como principal parceira a Fundação Vanzolini, que presta assessoria jurídica ao Grêmio. Tanto a assessoria quanto a renegociação da dívida estão sendo usadas para chantagear os estudantes, com a ameaça de que nenhuma das duas continuará se a “Elos” não for reeleita. Nessa toada, omitem que a renegociação de dívidas é uma prática comum e que a Fundação Vanzolini é parceira de universidades vinculadas ao complexo militar israelense (Universidade de Tel Aviv), o que implica no financiamento do Grêmio com dinheiro manchado de sangue palestino.

Acreditamos que a dependência e alinhamento com empresas privadas, o descaso com trabalhadores precarizados e a associação com o sionismo não são práticas comuns ao Correnteza. Achamos que os companheiros devem retomar suas próprias concepções de luta em torno dessas pautas e reavaliar essa tática, visto que se comprometer com esse programa apenas pela possibilidade de estar na gestão da entidade abre mão de interesses de longo prazo de construção de um ME fortalecido em troca de um interesse imediato.

As 60 páginas do programa da “Elos” apresentam uma concepção empresarial e institucional para o ME, sem qualquer projeto que transforme o Grêmio em ferramenta de luta – uma contradição para quem tem como bandeira o combate ao “imobilismo”. Para nós, comunistas, o papel de uma entidade estudantil é organizar e impulsionar lutas dentro e fora da universidade, conectando o ME às lutas dos trabalhadores. O Grêmio Politécnico, uma das entidades mais antigas do país, tem um histórico de lutas que queremos reconstruir.

A reconstrução da atuação política ativa e histórica do Grêmio deve ser o objetivo de quem defende um projeto alternativo para o ME. Isso não se fará com a diluição em mais uma gestão da “Elos”, mas com a apresentação de bandeiras claras. Um exemplo da concessão programática é o programa da “Elos” atribuir a desindustrialização apenas à ditadura e à abertura de mercados, ignorando os últimos 30 anos de medidas neoliberais – inclusive sob governos petistas. Abrir mão dessa análise impede uma posição consequente contra os ataques atuais do governo federal e estadual.

Consideramos um erro os companheiros abaixarem suas bandeiras nessa disputa, o que não ajuda o desenvolvimento do ME. A justificativa que nos comunicaram de buscarem tensionar a chapa à esquerda não se sustenta sem a apresentação clara e independente de um programa político. Fazemos este debate franco porque acreditamos que a polêmica entre correntes aliadas é uma forma de elevar o nível político de nossas divergências. Expressamos nossas diferenças de maneira clara e respeitosa, considerando que os companheiros cometem um erro de percurso que pode ser facilmente corrigido.

Esperamos que esta nota abra um diálogo sobre os programas e táticas das organizações políticas que constituem a oposição, visando à melhor forma de reconstruir o ME na Poli e no país, o que impõe a necessidade deste posicionamento firme apesar de fraterno.