Nota política - Balanço das eleições do DCE UFRGS de 2025: a luta por um movimento estudantil combativo, radical e socialista entra em um novo período!

Diante da vitória do governismo, quais são os próximos passos para aqueles que estão comprometidos e dispostos a levar até às últimas consequências os interesses e demandas do corpo estudantil, da classe trabalhadora e dos povos oprimidos do Brasil e do mundo?

Nota política - Balanço das eleições do DCE UFRGS de 2025: a luta por um movimento estudantil combativo, radical e socialista entra em um novo período!

Nota política da UJC e PCBR na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

I. Introdução 

Entre os dias 24 de novembro e 3 de dezembro ocorreram as eleições para o Diretório Central dos Estudantes da UFRGS (DCE UFRGS). O processo eleitoral ocorreu após a conjunção de um ano da Reitoria social-liberal de Márcia Barbosa e Pedro Costa e um ano de gestão do DCE pelo campo democrático-popular petista (UJS, JPT, LPJ, Afronte e JPL). Nesse período, vimos, por um lado, uma administração central da universidade que realizou uma série de ataques contra o corpo estudantil - como a diminuição do período de recurso para o envio de documentações socioeconômicas de estudantes cotistas -, e, por outro, um DCE completamente aparelhado e sem independência para enfrentar este ataque. Ao mesmo tempo, enquanto reflexo da fragilidade na capacidade de articulação conjunta da oposição, as organizações que a compõem não conseguiram se organizar para fazer frente a este cenário ao longo do ano, conseguindo avançar apenas nos últimos meses, o que deixou um caminho aberto para esse ataques com resistências pontuais das organizações, mas que falhamos em massificar ou potencializar até o Acampamento em Solidariedade à Palestina.

Diante deste cenário, participamos ativamente e construímos a Chapa 4 – Nosso Tempo é Agora: reinventar a UFRGS, que apresentou uma alternativa real ao que era posto pela Chapa 1 – É o Fluxo!, compreendendo que muitas das falhas da oposição no último período, e que foram criticadas por nós ao longo dos últimos anos, gestou a vitória da chapa governista em 2024 e que, diante disso, houve uma plena disposição para que um processo de autocrítica fosse expresso na prática do que foi proposto enquanto chapa. Ainda assim, apesar da dualidade muito posta entre situação e oposição, a eleição contou com três chapas de oposição.

No seguinte texto trazemos nossa perspectiva desse processo, tanto de configuração das chapas, quanto da própria campanha. Mas mais do que isso, buscamos colocar a seguinte questão como central: diante da vitória do governismo, quais são os próximos passos para aqueles que estão comprometidos e dispostos a levar até às últimas consequências os interesses e demandas do corpo estudantil, da classe trabalhadora e dos povos oprimidos do Brasil e do mundo?

II. Um compromisso unitário pela construção de um novo movimento estudantil: a constituição da Chapa 4 e seus significados

Anteriormente, expomos na Plataforma Comunista Revolucionária para a UFRGS a nossa análise de conjuntura em que vimos a continuidade da ofensiva burguesa globalmente, se expressando tanto com o avanço de políticas de austeridade quanto pela ascensão da extrema-direita, mas com princípios de mobilização da classe trabalhadora que poderiam fazer enfrentamentos necessários e fundamentais nesse próximo período. Foi na esteira disto que fizemos uma análise local de qual seria o cenário que enfrentaríamos neste processo eleitoral e ao longo do próximo ano: compreendendo que o campo democrático-popular que estava no DCE não seria capaz de organizar as lutas necessárias e imediatas do movimento estudantil, e que, devido a sua interligação com o governo federal – que vem atuando como gestor da política econômica de austeridade da burguesia – e com a Reitoria, o Diretório Central dos Estudantes não seria um instrumento útil à luta da classe trabalhadora, como demonstrou ao longo do seu primeiro ano de gestão.

Ao mesmo tempo, as organizações de oposição à esquerda demonstravam avanços políticos em crítica ao cenário posto pelo campo governista que abriram espaço para: I. Que nossas críticas programáticas, que nos levou a sair deste campo na UFRGS em 2022, fossem incorporadas a um programa unificado de toda a oposição; II. Que essa unidade se desse com todas as organizações de oposição na universidade (UJC/PCBR, Faísca Revolucionária/MRT, Juntos!/MES, Correnteza/UJR/PCR, Ocupe/Fortalecer, Alicerce e Rebeldia/PSTU), conformando uma unidade em que o Programa teria centralidade acima das disputas entre organizações, como foi demonstrado pelo Acampamento em Solidariedade à Palestina; e III. Que, diante da contradição de um DCE profundamente interligado e submisso à Reitoria de Márcia Barbosa e Pedro Costa, a própria base política da gestão governista estava se desgastando pela incapacidade de responder a questões candentes do movimento – como, por exemplo, o sucateamento da universidade e a expansão forçada pelo governo federal rumo à Serra Gaúcha sem qualquer garantia de qualidade, que enfrentou resistências estudantis e sindicais até a sua aprovação, e pela incapacidade de fazer frente a um Protocolo Climático que categorizamos como “pra inglês ver” –, dando plenas condições para que a Oposição Unificada, com um Programa Político que expusesse essas contradições e se apresentasse como uma alternativa real, ganhasse as eleições

Ao deliberarmos isto, compreendendo a responsabilidade que nos cabe enquanto organizações que se pretendem ser vanguarda do movimento, iniciamos diálogos bilaterais com cada uma das organizações. Buscamos apresentar nossa leitura da conjuntura e nossa proposta política de unidade programática, realizando um processo de escuta ativa para construir as pontes necessárias para uma unidade em torno de um programa e uma campanha política coesa na UFRGS. Neste processo, organizações como a Faísca e o Juntos declaram publicamente a necessidade da unidade da oposição e a necessidade de uma plenária programática para conformar a unidade. 

Estes diálogos resultaram numa reunião multilateral entre todas as organizações de oposição, que discutiu as análises de conjuntura de cada organização, pontos programáticos para o movimento estudantil e para a universidade, e os princípios organizativos para a construção unitária – portanto, as discussões mais fundamentais para que pudéssemos garantir uma unidade programática. Nestas discussões, o alinhamento programático era evidente, com algumas divergências pontuais e secundárias sendo postas entre as organizações, mas, de forma evidente a todos, nada que o amadurecimento das discussões e uma troca de ideias franca e direta não pudesse ser mediado com qualidade – afinal, todas as organizações afirmavam com clareza a necessidade de evitar um programa que fosse uma “colcha de retalhos”, que abrigaria tudo e em que cada organização falaria o que fosse melhor para si. Como resultado desse processo, convoca-se unitariamente a Plenária Programática por um Movimento Estudantil Independente e Combativo. Em outra reunião multilateral, antes da plenária, o Movimento Correnteza anunciou que não iria compor oficialmente a plenária (pois teria uma brigada de jornais prioritária) e iria enviar uma delegação para acompanhar o espaço, encaminhando dois militantes, sem identificação e sem intervenção no espaço enquanto Correnteza. 

Apesar de certas problemáticas, como a ocorrência da chuva no mesmo dia da plenária, o atraso para início que limitou a possibilidade de participação dos camaradas do Alicerce e do Ocupe, a metodologia ainda confusa até a realização da plenária, o espaço foi muito qualitativo, sendo um espaço de troca de conhecimentos e linhas políticas importante. Todavia, não devemos tomar como inevitável a baixa adesão de estudantes independentes, mas sim como parte do apassivamento do movimento estudantil, que leva a baixa capacidade de mobilizar estes segmentos em torno de uma candidatura para o DCE, e também do período ser logo antes do final do semestre. Este espaço aprovou como encaminhamentos as seguintes deliberações:

  • Eixos Políticos
    1. Por um DCE combativo, aliado dos trabalhadores e independente da reitoria e do governo Lula-Alckmin para enfrentar a extrema direita e lutar em defesa da UFRGS: revogação dos cortes na educação e do arcabouço fiscal já!
    2. A falta de permanência empurra a juventude para a escala 6x1: permanência plena para toda a demanda, fim da 6x1 e redução da jornada de trabalho, revogação das reformas trabalhista e da previdência!
    3. Por um movimento estudantil anti-imperialista: abaixo ao genocídio na Palestina! Não à intervenção de Trump na América Latina e a submissão do Brasil à “petroquímica”! 
    4. Reinventar a UFRGS: por um processo estatuinte livre e soberano pra comunidade universitária decidir os rumos da UFRGS!
  • Pontos Programáticos:
    1. Congresso Universitário da UFRGS
    2. Por uma educação e universidade voltadas à classe trabalhadora
    3. Radicalização da democracia na universidade: pelo fim da lista tríplice, por uma gestão democrática composta pelos quatro setores e eleita por um voto por cabeça!
    4. Pela criação das cotas trans! Ampliação pra 70% da entrada por cotas rumo ao fim do vestibular!
    5. Moradia estudantil e transporte pro Litoral Norte! Em defesa da Casa de Estudantes Indígenas e da CEU: reformas de acordo com a demanda já!
    6. Por um plano de acessibilidade e inclusão: reforma da infraestrutura e curricular de acordo com as necessidades da comunidade acadêmica
    7. Efetivação dos terceirizados sem a necessidade de concurso e mais concursos para toda a demanda
    8. Impulsionar o Comitê UFRGS Palestina Livre
    9. Não à privatização do conhecimento: fim da relação com as grandes empresas na UFRGS
    10. Enfrentamento à crise climática e contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Por uma UFRGS que construa um plano de enfrentamento aos eventos climáticos extremos e contribua para uma reforma urbana radical!
    11. Contra o massacre da juventude periférica e contra a falsa guerra às drogas! Fim da polícia!
    12. Não ao pagamento da dívida pública!
    13. Basta de privatização! Revogação das privatizações do DMAE e da CEEE
    14. Reestatização da Carris sob controle dos trabalhadores! Passe livre e estatização do transporte público de Porto Alegre, com ampliação das frotas e linhas! Pela volta do D43!
    15. Não à reforma administrativa!
    16. Garantia de independência financeira do DCE em relação a empresas privadas e política permanente de transparência financeira
    17. Direito de expressão de minoria
    18. Defesa a Campanha do Museu do Negro em Porto Alegre
    19. Criação do Coletivo de Organização das Licenciaturas da UFRGS
    20. Em defesa da extensão nas periferias!

Estes pontos demonstraram uma disposição que vai além de uma unidade em torno da ideia do mal menor, da ideia de um voto útil contra o governismo que se instaurou no DCE. Elas têm dois elementos basilares para nós: I. A apresentação do papel que deve cumprir o DCE, enquanto uma ferramenta que vai apontar para a necessidade de auto-organização do corpo estudantil como setor que deve se aliar com a classe trabalhadora, portanto um organizador do movimento estudantil e não como um fim em si mesmo; II. A necessidade de repensar a universidade, para uma universidade e uma sociedade que tenha em seu centro a classe trabalhadora, uma sociedade socialista. 

Deste modo, este compromisso aberto entre as organizações estabeleceu um diálogo direto com compreensões do PCBR acerca da construção da Universidade Popular. Tanto como um projeto de educação superior socialista-comunista, profundamente atrelada aos interesses e demandas da classe trabalhadora e povos oprimidos do Brasil e do mundo, quanto enquanto estratégia e tática para dirigir o movimento, compreendendo a necessidade das entidades representativas serem o ponto de partida para acender a chama do movimento estudantil novamente para que este se coloque em enfrentamento aos interesses da burguesia brasileira e gaúcha.

Após a plenária, na III Reunião Multilateral tivemos a confirmação de que o Correnteza deliberou por não compor a chapa. Inicialmente os camaradas da UJR afirmaram que possuiam divergências programáticas com o programa político apresentado pela plenária – que durante o processo de construção não foram apontados – além de uma suspeita com parte das organizações que compunham a chapa, o que até certo ponto é legítimo tendo em vista a novidade que uma chapa unificada de toda a oposição, após anos em que a esquerda que se propõe enquanto revolucionária estava fragmentada na UFRGS, traria desconfianças. Na seção de balanço sobre a campanha nos aprofundaremos mais nas supostas “diferenças programáticas”. Porém, para nós, o rompimento com a construção de unidade, diante de uma conjuntura posta em que poderíamos ter uma das mais importantes entidades estudantis do Brasil na mão do governismo em 2026, ano eleitoral, colocaria a urgência de uma maior disposição para construir os diálogos necessários. 

Entretanto, tanto ao longo da campanha, quanto pelos posicionamentos postos, era perceptível que o cálculo político realizado não foi programático, mas sim pragmático e oportunista. Fizeram a análise de conjuntura de que não seria possível vencer o campo democrático-popular pela atuação representativa que manteve certa constância e a fraca oposição ao longo do ano como um todo e, com base nesta análise feita, tomaram o caminho da autoconstrução da própria organização como central neste processo eleitoral. Afinal, ao aderir à unidade, teriam que se dispor a construir um programa político que tivesse em seu centro as convergências entre as organizações, além de fazer uma ampla e aberta negociação de cargos com outras organizações, as quais teriam que ser acomodadas de algum modo na chapa, abrindo mão eventualmente de certas inserções – efetivamente, não conseguiam dar as cartas para o processo de unidade da forma que gostariam. Ademais, em diversas bases do movimento estudantil, o Correnteza se encontra em disputa com outras organizações da oposição, como no IPSSCH, IA, IFCH, ESEFID, o que também tensiona a construção unitária de um processo que coloque no centro uma política comum e compartilhada.

Todas as organizações presentes nesta IV Multilateral, UJC, Juntos!, Faísca, Ocupe, Alicerce e Rebeldia, condenaram e viram como problemática a atitude dos companheiros. Isso enfraquecia uma política radical, independente e combativa para fazer frente ao governismo, além de uma visão de tática e estratégia limitada, pois mesmo se não houvesse chances – o que em maioria das organizações apresentaram desacordo, tendo em vista que a percepção média era de que seria uma eleição difícil, mas não impossível –, ainda assim era um processo importante para consolidação de uma frente necessária para o enfrentamento aos desafios postos pro próximo período. Diante deste momento, ainda assim as organizações naquela multilateral se mantiveram comprometidas com a unidade. Porém, após tensionamentos na reunião decorrentes de disputas anteriores com outras organizações nas bases do movimento estudantil, o Alicerce rompe com a unidade e, novamente, não por divergências programáticas, não com o programa político, mas sim por conflitos com o Juntos! que não foram possíveis de mediar. Para além da avaliação de que a oposição não-unificada não teria chances de vitória, não houve mediação possível para a reivindicação de uma das primeiras cadeiras do CONSUN para o Alicerce, já que todas as demais forças não tiveram acordo – afinal, a atuação do Alicerce no CONSUN em 2025 foi marcada por lacunas de participação, com ausências em sessões com pautas fundamentais para o movimento universitário. Mesmo assim, seguimos dialogando e construindo a importância de uma construção unitária, que se colocasse com responsabilidade diante da conjuntura posta, engajando e constituindo o que viria a ser a Chapa 4, Nosso Tempo é Agora: pra Reinventar a UFRGS, sua identidade visual, seus pontos de campanha principais (Congresso Universitário Estatuinte e por um DCE combativo, independente e radical), que culminou no evento “Pra Organizar a Nossa Revolta: Convenção da Oposição de Esquerda rumo às Eleições do DCE”.

Portanto, temos como balanço central para este período pré-eleitoral que ele construiu bases sólidas e capazes de guiar uma atuação que faria frente ao que é o atual DCE não só enquanto gestão, mas também pela própria concepção de qual deve ser o papel da entidade. Os diálogos e construções anteriores à campanha foram fundamentais para consolidar uma unidade de ação clara no movimento, ainda que neste processo tenha nascido em uma contradição: sabendo da possibilidade de vitória contra a chapa petista, composta pela UJS e JPL (ambas do PCdoB), Kizomba e Juventude SoCo (ambas do PT), Levante Popular da Juventude e o Afronte/Resistência-PSOL, caso a oposição fosse unificada, o que fazer diante da fragmentação política da oposição nesta campanha?

III. Uma campanha que apresentou um caminho para o movimento: a campanha da Chapa 4 e um balanço do processo eleitoral como um todo

A Chapa 4 - Nosso Tempo é Agora: Reinventar a UFRGS! teve seu embrião na luta conjunta construída no Acampamento em Solidariedade à Palestina, construído em setembro deste ano enquanto um movimento fundamental para a luta contra os convênios da UFRGS com instituições israelenses como a AEL Sistemas. Com a criação do Comitê de Solidariedade à Palestina da UFRGS, essa luta conjunta das diferentes forças da oposição foi essencial para a conquista das moções de repúdio às relações da UFRGS com a AEL Sistemas e de apoio à Global Sumud Flotilha, aprovadas no CONSUN no dia 26 do mesmo mês – mesmo com uma maioria conservadora no conselho, com ataques da atual gestão do DCE e com uma oposição clara na fala de diversos professores e até mesmo do próprio vice-reitor. A partir dessa vitória conquistada pela Jornada de Lutas em Solidariedade à Palestina, que levou ao rompimento de estágios com a AEL, se mostrou a força de uma atuação em unidade para o cenário da UFRGS, que se expressou posteriormente na construção da Chapa 4 para as eleições do DCE.

A identidade visual da chapa refletiu justamente esse processo: colocando como elemento fundamental da unidade a luta internacionalista ao assumir as mesmas cores da bandeira palestina (branco, verde, vermelho e preto) e ao abraçar a simbologia dessa luta, como no exemplo dos panfletos da chapa em forma de barco de forma a representar a solidariedade à Global Sumud Flotilha e ao apresentar que foi por meio da mobilização, e não do diálogo institucional, que conseguimos conquistar o rompimento de estágios e convênios com a AEL. A montagem dos barcos de papel não só consolidou a identidade da chapa, mas também aproximou diversos estudantes da importância da luta pró-palestina e da origem da unidade entre as diferentes forças da chapa. Além do mais, o símbolo da chapa fortalece o caráter anti-imperialista do movimento estudantil que a Chapa 4 apresentou, já que possui um barco cuja vela é a união da América Latina invertida e o mapa da Palestina unida do rio ao mar – ou seja, a ideia de que a luta em solidariedade à Palestina é, necessariamente, uma luta anti-imperialista.

A Chapa 4 teve como foco alguns pontos programáticos centrais, sendo o principal a luta com independência política de reitorias e governos e a reconstrução do movimento estudantil de forma que o DCE não seja uma entidade que apenas representa os estudantes, mas os mobilize para que estes consigam reivindicar suas demandas, fazendo isto a partir de diferentes espaços – não só por meio de diretórios e centros acadêmicos, mas também espaços de debate como assembleias e GTs abertos. Também se destacavam enquanto pontos centrais da campanha da chapa a luta por um Congresso Universitário Estatuinte, que pudesse rever o Regimento e Estatuto da universidade não só para varrer todos os remanescentes da ditadura militar, como a lista tríplice e a proporção 70/15/15, mas também levar diversas reivindicações do movimento universitário, como as cotas trans, o aumento da proporção de cotas para pelo menos 70% das vagas e um protocolo climático eficiente. Outro ponto foi a luta pelo fim da terceirização e a efetivação dos trabalhadores terceirizados, em que apontamos a profunda precarização do trabalho que este regime de trabalho, consequência de políticas de austeridade como o arcabouço fiscal – vemos isso, por exemplo, com a expansão do horário do RU sem aumento no número de trabalhadores e em seus salários. Outros pontos do programa da chapa envolviam políticas de permanência como a moradia estudantil (tanto em Porto Alegre quanto no Litoral Norte) e transporte público de qualidade rumo à tarifa zero. 

A respeito do processo eleitoral conduzido por uma Comissão Eleitoral (COE) alinhada à gestão governista, ele foi pensado e organizado justamente buscando uma via de despolitização, já que minou e esvaziou diversos espaços políticos típicos de uma eleição de DCE. Seja pelo período eleitoral no final de semestre proposto pelo DCE, no qual a maioria dos campi já estavam esvaziados e, portanto, não só tornaram os debates praticamente vazios com pouca adesão, como diminuíram o alcance de passagens de sala e panfletagem, o que diminuiu as possibilidades de diálogo com os estudantes. Tendo em vista esses elementos, a campanha virtual passou a ser o principal meio de campanha, o que sem dúvidas minou a capacidade de politização do processo. Afinal, a eleição também deveria ter o propósito de elevar o nível de consciência dos estudantes acerca das disputas políticas dentro da universidade e do país, algo que pouco ocorreu nesta última gestão de DCE. Além do mais, a campanha foi marcada por uma disputa suja e imatura por parte das forças da Chapa 1 (É o Fluxo!), se utilizando das redes sociais do DCE alegando que a gestão ainda não tinha terminado, além de remover materiais de campanha de todas as chapas em todos os campi da universidade – denúncia esta que nem pôde ir para frente dentro da COE, cuja composição era majoritariamente por militantes ou aproximados das forças políticas da Chapa 1, de forma que muitas violações do regimento eleitoral simplesmente passaram com pouca discussão. 

Além disso, foi vergonhosa a associação direta entre a Reitoria e a Chapa 1 durante o processo eleitoral. Se ao longo do ano estava escancarado o papel que o DCE cumpriu enquanto um braço da Administração Central, mesmo durante a campanha isso ficou escancarado: no primeiro dia de campanha tanto a Reitora quanto algumas das pessoas que estão a frente de suas pró-reitorias reportaram no Instagram materiais de campanha da Chapa 1. Após a denúncia feita acerca disso, o constrangimento foi evidente, em tal ponto foi retirada a repostagem. 

Dessa forma, criticar a lisura e a organização das eleições, e as condições desiguais durante ela é impossível sem criticar diretamente a Chapa 1. Para além das suas práticas antidemocráticas, a despolitização instrumentalizada no processo eleitoral também foi promovida em sua própria campanha. O tom da campanha que apresentava todo o processo como um grande rolê, em que era só seguir o fluxo do que vinha sendo feito demonstrou também a própria limitação política do campo democrático-popular, que focou ao longo da sua campanha apenas na defesa da sua própria gestão – que inclusive reivindicava vitórias e mobilizações em que o DCE sequer foi protagonista ou atuante. 

As forças políticas dentro da chapa que supostamente “lutam” são as mesmas que fizeram malabarismos para defender o novo arcabouço fiscal do governo Lula, responsável pela atual continuidade da precarização da estrutura da universidade, e que também ignoraram (e até ironizaram) as lutas pró-Palestina dentro da universidade promovidas pela oposição – num ponto que a Palestina não surgiu como um ponto de campanha em nenhum momento, inclusive atraindo votos de setores sionistas da universidade. As passagens em sala e até mesmo participações nos debates da chapa 1 pareciam muito mais uma defesa da sua gestão anterior, com dificuldades em responder críticas sobre o protocolo climático e até mesmo sobre o famoso suco do RU, do que uma defesa de um programa político consistente para a próxima gestão. A mudança mais expressiva na Chapa 1 em relação à sua gestão anterior não se vê no programa, mas sim na composição, com a perda de força do Afronte e o avanço interno da JPT, passando da Tesouraria para uma posição na Coordenação – o que demonstra um isolamento da única força do PSOL, representando o setor governista deste partido, dentro da chapa. Em suma, o campo democrático-popular demonstrou a sua plena capacidade de instrumentalizar a despolitização da comunidade acadêmica, demonstrando como períodos de baixa do movimento potencializam essas organizações.

Já a Chapa 2, composta pelo Alicerce, trouxe elementos importantes para os debates, tendo como pontos centrais da sua campanha a gestão aberta e a luta pelo passe livre. Apesar disso, apresentou limitações de conectar esses pontos com um programa político mais amplo para a universidade, pois muitas vezes apresentavam esses elementos como um fim em si. Além do mais, tiveram dificuldades de mostrar algum diferencial em relação às demais chapas, seja na identidade visual, seja no programa, seja no discurso. 

A Chapa 3, composta pelo Movimento Correnteza, teve questões parecidas, muito embora enfatizou alguns elementos não tão aprofundados por outras chapas, como as políticas anti-assédio e a centralidade que essa luta tem para a permanência de mulheres na universidade. Também teve sua campanha muito voltada para a autoconstrução, muitas vezes focando no seu próprio jornal ou sobre tarefas da organização, como ocupações ou atos. Seu maior esforço voltado para o processo eleitoral foi de polarizar com a Chapa 4, não é à toa que muitas vezes focou nas pautas imediatas para contrastar com a nossa campanha. 

Aqui é fundamental pontuar que não houveram divergências programáticas entre as chapas de oposição ao DCE, com as principais diferenças se dando principalmente na ênfase dada: enquanto as discussões das Chapas 2 e 3 focaram principalmente em reivindicações imediatas, a Chapa 4 fez uma discussão programática mais abrangente. Mas, fundamentalmente, fazíamos a mesma crítica aos métodos da gestão governista, à centralidade da luta contra as políticas de austeridade e à necessidade de independência política em relação à Reitoria. 

Nesse sentido, isso também aponta para os nossos erros enquanto chapa. Como já mencionado anteriormente, a campanha da Chapa 4 focou muito mais em pontos programáticos em escala maior, voltados para um projeto político de universidade, e seus impactos diretos nas diferentes reivindicações, mas teve dificuldade de dialogar com pautas imediatas, como políticas voltadas à permanência e ao tripé universitário no curto e médio prazo, elementos esses que potencializaram a campanha das demais chapas de oposição. 

Ao mesmo tempo, esse foco em pontos maiores, como a luta pelo orçamento contra o arcabouço fiscal e a precarização que advém dele, a disputa em torno de um projeto de educação superior que sirva a classe trabalhadora, não demonstrou com clareza o horizonte socialista dessas propostas. Além disso, salvo exceções em que o trabalho político das organizações tem mais constância e capilaridade, a maioria das bases estudantis mantiveram-se alheias ao processo eleitoral mesmo onde as forças de oposição estão inseridas – um cenário potencializado tanto pela desarticulação desta quanto pelo final de semestre e o esvaziamento da universidade. 

IV. Próximos passos: por uma Frente Unificada da Oposição! 

Primeiramente, temos que apresentar como positivo este processo eleitoral e a construção política realizada: um programa político que se colocava em disputa direta com as concepções sociais-liberais para o movimento estudantil, para a universidade e para o Brasil foi apresentado e teve uma expressiva adesão no movimento ao ponto que atingiu a marca de 1824 votos (30,02% dos votos) e, além disso, foi expressiva a rejeição a um movimento estudantil governista e institucionalizado apresentado pela Chapa 1 (com a soma de 50,35% dos votos para todas as chapas que se colocavam em oposição à gestão do DCE). 

Deste modo, restou comprovada a análise de conjuntura que nos guiou durante esta campanha eleitoral: uma campanha que apresentasse uma disputa honesta e aberta de concepção de uma entidade representativa como o DCE, como uma entidade que deve ser combativa e mobilizadora, que saiba combinar diferentes formas de lutas, que apresente uma outra perspectiva de sociedade, e que consiga apresentar isto por meio do diálogo com as demandas imediatas, composta por todas as forças de oposição teria plena capacidade de vencer o processo eleitoral – derrotando perspectivas derrotistas ou que, pior, compreendem que as funções de um DCE foram cumpridas pela última gestão.

As autocríticas necessárias e apontadas anteriormente, principalmente na dificuldade de apresentar a perspectiva emancipatória do socialismo como finalidade da atuação de um movimento estudantil aliado da classe trabalhadora e de estabelecer as mediações necessárias com as demandas imediatas, foram centrais para que a chapa não conquistasse a vitória, com o primeiro flanco (a perspectiva estratégica da revolução socialista) foi deixada de lado por todas as chapas, mas o segundo flanco foi o central para as Chapas 2 e 3. Com o fim deste processo, resta a pergunta: qual deve ser o caminho a partir de agora? 

Para nós é clara qual a necessidade para o próximo período: constituir uma Frente Unificada da Oposição! Apresentamos essa necessidade de superar o caráter ainda eleitoral não só numa perspectiva imediata, para o combate que estará posto no próximo ano em que teremos um orçamento menor que o de 2014 para as universidades federais, com um DCE ainda mais apassivado diante dos interesses eleitorais do próximo ano. Mas pela nossa concepção de tática para o movimento geral da classe trabalhadora, que é guiada pela necessidade de construção orgânica da Frente Anticapitalista e Anti-imperialista, isto é, a unidade programática em uma frente única de todos aqueles dispostos à luta socialista revolucionária, incluindo partidos, organizações políticas, movimentos operários e populares, contra o Estado capitalista e suas expressões das mais generalizadas até as mais particulares. 

Para nós, este processo de construção programática, que rompa com a lógica de apenas buscar vitórias eleitorais, se dará a partir do compromisso das organizações em respeitar as divergências de linha e programa, mas  da disposição das organizações em construir um projeto distinto de educação e sociedade — que seja autônomo frente aos governos, crítico à política econômica do lulismo e guiado pela perspectiva socialista revolucionária.

Porém, essa construção deve sair da abstração e uma disposição apresentada na prática pela maioria das organizações de oposição: devemos dar passos concretos e firmes para a unidade do próximo período. Para isto, é fundamental que o ponto de partida da nossa unidade se mantenha com o desenvolvimento de um programa comum e coeso. Para isso, consideramos necessário os seguintes desenvolvimentos: I. As organizações de oposição e todos aqueles que se alinharem com a necessidade desta Frente devem se reunir para discutir este último processo eleitoral e os próximos passos; II. Neste sentido, compreendemos que é fundamental a construção de uma tática política unificada para o próximo ano; III. Devemos fazer o movimento de aproximar todos aqueles que se mostrem alinhados, desde organizações que saíram da construção eleitoral ou que inicialmente não venham a se alinhar, até a aproximação com CAs e DAs que se mostrarem dispostos ao diálogo e construção de uma alternativa de movimento estudantil no próximo ano; e IV. Construir, desde já, as bases para uma Frente, articulando em torno de um programa político as diferentes bases estudantis, visando conseguir disputar de forma plenamente organizada os rumos do movimento.

Para nós, estes passos iniciais demonstram disposição à uma unidade verdadeira, comprometida com um projeto de universidade e um movimento estudantil diferente, e que consiga já no início do próximo semestre apresentar-se à UFRGS enquanto um corpo político com profunda clareza do que defende e como se diferencia do campo democrático-popular. Ainda nesse sentido, diante dos desafios que se apresentam, é fundamental conseguirmos constituirmos a unidade de ação plena entre toda a Oposição. 

E é por essa perspectiva que convocamos o Alicerce e o Correnteza a se juntarem a essa construção, de forma a construir um movimento estudantil e uma universidade que sirva à classe trabalhadora do nosso país e do mundo, para conseguirmos colocar a limpo esse último período. Vemos que é central estabelecer os diálogos necessários para unificar as nossas lutas, prezar pela construção conjunta programática onde moram nossas convergências, pois é exatamente a unidade de ação em torno de um programa que unifique todas as forças de oposição que permitirá que avancemos na luta contra o setor governista, na luta por condições dignas de permanência e enfrentemos todos os ataques contra a educação superior pública.